
Mas é possível ser flâneur na cidade contemporânea? A flânerie é compatível com a sociedade (pós-)industrial que instrumentaliza sua relação com o tempo e com o espaço? É viável tentá-la em pleno século XXI?
A mudança na relação do homem com o tempo e com o espaço, bem como as alterações urbanísticas sofridas pela cidade industrial, tornaram a flânerie uma atividade relegada ao terreno da excentricidade. O planejamento urbanístico atual obedece à lógica de funcionalidade e de compressão espaço-temporal, buscando garantir aos seus habitantes um deslocamento cada vez mais veloz por espaços cada vez mais extensos. Na esteira desse processo, as ruas passam a ser meras vias de passagem -- ou até mesmo "não-lugares" --, deixando de ser espaços de contemplação e de convivência e perdendo seu valor de subjetividade.
Some-se a isso uma relação instrumentalizada do homem com o tempo. Hoje, o tempo é organizado para atender às demandas imediatas do indivíduo: seus compromissos profissionais e suas necessidades recreativas. Os deslocamentos pela cidade obedecem quase que exclusivamente a esse imperativo: aqui, o espaço é somente uma distância a ser vencida. Atividades que fogem a essas demandas imediatas do indivíduo -- como a contemplação, a observação, a reflexão e a meditação -- são logo rotuladas como "inúteis".
Nesse contexto, nosso amigo flâneur encontra-se mortalmente encurralado. A flânerie é incompatível com o tempo industrial -- o tempo do relógio e da linha de produção --, que totaliza suas práticas e esmaga as espontaneidades individuais. Em última análise, ser um flâneur é um ato de resistência individual a esse movimento totalizante e homogeneizante.
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