quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A flânerie como resistência ao estilo de vida contemporâneo (I)

14h30min, esquina da Rua Treze de Maio com a Rua Barão do Serro Azul, Curitiba: um rapaz, vinte e poucos anos, toca flauta enquanto dirige seu carro, que está parado no sinal vermelho. Diverti-me com a excentricidade da situação. Mas, acima de tudo, confortou-me saber que ainda consigo degustar cenas deliciosas da rotina urbana como essa, mesmo que enredado por relógios, horários, compromissos, sinaleiros e engarrafamentos.

Conceito caro a Charles Baudelaire, a flânerie é o ato de deliberadamente e descompromissadamente vagar pelo espaço urbano, em busca de detalhes escondidos ou imperceptíveis aos olhos mais apressados. É observar o olhar que a mãe troca com o filho ao lhe dar um sorvete, o conteúdo que o homem engravatado carrega em sua pasta, a fachada das edificações, o significado dos grafites e das pichações, as relações de poder e as territorialidades dos mendigos e das prostitutas.

A flânerie possui ricas representações na literatura mundial que vão além de Baudelaire. Italo Calvino é um flâneur em suas "cidades invisíveis", mesmo que o faça por intermédio de Marco Polo e de Kublai Khan. Dalton Trevisan pode ser considerado o exemplo local dessa tendência na literatura, com sua flânerie hiperrealista e saudosista pelos bairros de Curitiba.

Mas é possível ser flâneur na cidade contemporânea? A flânerie é compatível com a sociedade (pós-)industrial que instrumentaliza sua relação com o tempo e com o espaço? É viável tentá-la em pleno século XXI?

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