sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Um paradigma obsedante: crítica cultural e reflexões para o futuro

O pós-moderno e o pós-colonial



Jonas Bendiksen
KENYA. Burnt Forest. 2008



Sem querer propriamente repisar o freqüentado terreno das digressões críticas que envolvem esse mesmo debate, gostaria de acrescentar uma pontuação pessoal no envolvimento de suas tendências epistemológicas, às vezes ingênuas e disparatadas, de renovação cognitivo-instrumental da modernidade tardia.

Em geral, quando se fala em pós-modernidade, tem-se presente a matriz de fundamento dialético erigida pela crítica cultural das últimas décadas; nomeadamente, a representada pela: (1) recente geração dos teóricos frankfurtianos, (2) pelos pós-estruturalistas franceses, seus naturais contendores, e (3) pelos militantes da voga do New Criticism, que de alguma forma parte dos dois postos anteriores para refletir a conjuntura cultural norte-americana. Assim, o debate aparece atrelado fundamentalmente à volta de dois grandes temas principais: o político-filosófico e o científico-epistemológico.

A partir deles, um conceito mais ou menos genérico de pós-modernismo invade os espaços especializados e públicos de conhecimento teórico, nos quais persistem uma deformidade elusiva sobre sua realidade programática e estrutural, resvalando num julgamento engessado que reduz suas prioridades à condição de mera desestabilização, irracionalidade e relativização das verdades consagradas pela tradição modernizadora. Em nome desta perspectiva, Terry Eagleton, intelectual eminente e consagrado teorizador da atual crítica cultural, sintetiza a pós-modernidade segundo esta inserção conceitual:

"Pós-moderno" quer dizer, aproximadamente, o movimento de pensamento contemporâneo que rejeita totalidades, valores universais, grandes narrativas históricas, sólidos fundamentos para a existência humana e a possibilidade de conhecimento objetivo. O pós-modernismo é cético a respeito de verdade, unidade e progresso, opõe-se ao que vê como elitismo na cultura tende ao relativismo cultural e celebra o pluralismo, a descontinuidade e a heterogeneidade. (EAGLETON, 2006: 27, nota 3)

A par disto, há ainda um equívoco forte indiciado pelo pós-modernismo, que pressente na sucessão temporal histórica uma conotação semântica de construtivismo e de progresso: a pós-modernidade emergiria do ponto exato em que a modernidade terminaria, impondo uma cronologia que se procura manter a custa de negações e superações temporais, reproduzindo a errática fórmula gerada pela própria modernidade de uma seqüência histórica e metanarrativa que engendraria o fim da história.

De fato, para conter esse posicionamento, a designação de pós-moderno é inadequada, mas é justamente por conta dessa inadequação que ela remonta antes a um sintoma que a uma solução (LATOUR: 1994, 73). Essa talvez acabe por ser a principal causa de sua controvérsia e rejeição pela maioria dos teóricos vanguardistas, da filosofia estruturalista à teoria da história, e apenas encartado pelos cientistas sociais inseridos no universo de uma corrente chamada de Crítica Cultural. Com isso, há que se observar o advento de duas “correntes interpretativas” sobre o fenômeno, antes de tudo epistemológico, da condição pós-moderna; primeiro, um partido fortalecido institucionalmente no interior da academia, que associa a ela toda sorte de negação e de aniquilamento, ao limite mesmo de sua suposta irracionalidade contra um apego desmesurado aos seus próprios instrumentos e à sua inteligibilidade metodológica.

O segundo movimento, fica pois por conta dos teóricos sociais, que em busca de uma posição eminentemente política, partem em direção do complexo movido pela interdisciplinaridade dos mecanismos de reflexão cultural, e que enxergam nesta guinada pós-moderna a ocasião libertadora da crítica, e finalmente, a oportunidade de se reconduzir aos preceitos ideológicos da emancipação – e porque não dizer logo, de uma Aufklärung reposicionada para além das prioridades iluministas da razão instrumental, historicista e progressista. Na verdade, para seus defensores, a proposta pós-moderna tem aspirações mais profundas – ou pelo menos, alternativas. Defensáveis, por exemplo, no prosseguimento das primitivas teorias utópicas em vias de exaurimento, e na contra-lógica daquela gestada pelo capitalismo ocidental como realização triunfante de emancipação social e política.

Porém, a sua complexa existência tem a dever outras fontes, fornecendo elementos contrassertivos propagadores de uma crítica polissêmica. Assim, posteriormente, a discussão foi enriquecida por um novo elemento axiológico. Naturalmente, falo do constructo reconhecido pelo nome de pós-colonialismo, cuja violenta desconstrução aporética acusa a tradição modernizadora ocidental de opressão e absolutismo racionalistas. Ela é, antes de tudo, uma resposta ao paradigma eurocentrista de conformação das verdades fundantes, ao unilateralismo de uma cultura totalizante que se arroga a ser porta-voz de um único ocidente, egresso do imperialismo e da univalência cultural dos países do norte. Sua proposta se enfileira ao lado de outras digressões críticas, tais como as vertentes que rechaçam o sexismo, o racismo e a influência de predominâncias culturais hierarquizantes; pretendendo, para além da imitação subserviente dos expedientes imperiais, produzir um discurso próprio, autêntico, haurido em sua contínua re-inscrição de valores e sistemas simbológicos em oposição ao fundamentalismo cultural. A particularização do presente, inferido de uma oportuna teoria de tradução, remonta à contingência de um discurso identitário, por si só transitório, de uma modalidade ética cultural e histórica.

Daqui outro substrato, vindo diretamente da teoria da história e dos teóricos da cultura, em que a oposição entre história e memória, entre “passados presentes” e “passados futuros” (HUYSSEN), e finalmente, entre a tradição de uma grande síntese histórica e a corrente designação das micro-histórias, produz um sentido particular às narrativas e à própria reformulação das subjetividades. O embate entre tempo histórico e tempo memorial decorre não só de suas naturezas dissonantes em suas relações com o passado, mas também nas reservas epistemológicas do primeiro sobre a “ingenuidade” do método do segundo. No entanto, a consciência mais assentada da memória quanto à sua própria razão discursiva, lhe garante um espaço mais firme – e vale dizer, menos controvertido e difuso – em sua tarefa de reproduzir a experiência do passado, mais do que atualmente a história tem podido atingir. A persistência inglória de a história reproduzir totalidades temporais foi que lhe arremedou a sua marca positivista até os dias de hoje, negando a impronunciabilidade da sua aspiração pelo rigor confiante de seu método.


Tal qual a projeção de suas propostas se diferem, o entrosamento constante de seus objetos não podem mais recrudescer. Assim, a problematização dessa antiga querela resvala no entendimento que se pode ter dos conhecimentos do passado e dos conhecimentos sobre o passado. Tanto um quanto outro se submetem às contingências enganadoras do processo de linguagem, e de seu sucedâneo, o registro do discurso. Também, impulsionador dessa nova voga teórica, os estudos sobre a memória devem muito ao estímulo oferecido pela fragmentação pós-modernista, assim, uma vez que já não é "possível sustentar uma Verdade, florescem em contrapartida verdades subjetivas que afirmam saber aquilo que, até três décadas atrás, se considerava oculto pela ideologia ou submerso em processos pouco acessíveis à simples introspecção” (SARLO: 2007, 39). A flexibilidade de discursos entre os postos intelectuais e os postos públicos, de onde o testemunho oral da comunidade anseia a sua equivalência para com o erudito, estabelece um primeiro conectivo, ainda estranho às suas órbitas, que ora pleiteia seu espaço na formulação do presente, para até mesmo cooptar seu vigor ao futuro.


Creio que o desejo de todos estes partidos tenha algo em comum, e que, mesmo a despeito do extremo radicalismo de suas resistências, isto pode ser então negociado. Finalmente, a construção de uma ciência pós-moderna, não teria o empenho de descartar a primazia do conhecimento científico, mas de conduzi-lo a uma abertura de espaços mais flexíveis de racionalidade, para até mesmo uma possível superação das dicotomias de sujeito/objeto e de sociedade/natureza, num envolvimento inaugurador da dialética entre as ciências naturais e as ciências sociais. Por hora, seria apressado supor sua efetividade, mas assim mesmo fica o seu alento.



Referências bibliográficas

DOMINGUES, José Maurício & MANEIRO, Maria (orgs.) América Latina hoje: conceitos e interpretações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Trad. Elisabeth Barbosa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

EAGLETON, Terry. Depois da Teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo. Trad. Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

HUYSSEN, Andreas. En busca del tiempo futuro. Trad. Silvia Fehrmann. “Medios, política y memoria”, Revista Puentes, año 1, N° 2, diciembre. Argentina, 2000.

JAMESON, Fredric. A virada cultural: reflexões sobre o pós-moderno. Trad. Carolina Araújo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994 (reimpressão 2005).

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Coleção “Para um novo senso comum”, v. 1. São Paulo: Cortez, 2000a.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 7.ª edição. São Paulo: Cortez, 2000b.

SARLO, Beatriz. Tempo Presente: notas sobre a mudança de uma cultura. Trad. Luís Carlos Cabral. Rio de Janeiro: José Olympio Ed, 2005.

SARLO, Beatriz. Tempo Passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Trad. Rosa Freire d'Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, Belo Horizonte: UFMG, 2007.

TOSTES, Rogerio R. Uma pós-modernidade para a América Latina: desafios à sociabilidade e às relações interculturais. In: Estudos de Direito Internacional. Anais do V Congresso Brasileiro de Direito Internacional, v. XI. Curitiba: Juruá Ed., 2007.

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