Jonas BendiksenKENYA. Burnt Forest. 2008
Sem querer propriamente repisar o freqüentado terreno das digressões críticas que envolvem esse mesmo debate, gostaria de acrescentar uma pontuação pessoal no envolvimento de suas tendências epistemológicas, às vezes ingênuas e disparatadas, de renovação cognitivo-instrumental da modernidade tardia.
Em geral, quando se fala em pós-modernidade, tem-se presente a matriz de fundamento dialético erigida pela crítica cultural das últimas décadas; nomeadamente, a representada pela: (1) recente geração dos teóricos frankfurtianos, (2) pelos pós-estruturalistas franceses, seus naturais contendores, e (3) pelos militantes da voga do New Criticism, que de alguma forma parte dos dois postos anteriores para refletir a conjuntura cultural norte-americana. Assim, o debate aparece atrelado fundamentalmente à volta de dois grandes temas principais: o político-filosófico e o científico-epistemológico.
A partir deles, um conceito mais ou menos genérico de pós-modernismo invade os espaços especializados e públicos de conhecimento teórico, nos quais persistem uma deformidade elusiva sobre sua realidade programática e estrutural, resvalando num julgamento engessado que reduz suas prioridades à condição de mera desestabilização, irracionalidade e relativização das verdades consagradas pela tradição modernizadora. Em nome desta perspectiva, Terry Eagleton, intelectual eminente e consagrado teorizador da atual crítica cultural, sintetiza a pós-modernidade segundo esta inserção conceitual:
"Pós-moderno" quer dizer, aproximadamente, o movimento de pensamento contemporâneo que rejeita totalidades, valores universais, grandes narrativas históricas, sólidos fundamentos para a existência humana e a possibilidade de conhecimento objetivo. O pós-modernismo é cético a respeito de verdade, unidade e progresso, opõe-se ao que vê como elitismo na cultura tende ao relativismo cultural e celebra o pluralismo, a descontinuidade e a heterogeneidade. (EAGLETON, 2006: 27, nota 3)
O segundo movimento, fica pois por conta dos teóricos sociais, que em busca de uma posição eminentemente política, partem em direção do complexo movido pela interdisciplinaridade dos mecanismos de reflexão cultural, e que enxergam nesta guinada pós-moderna a ocasião libertadora da crítica, e finalmente, a oportunidade de se reconduzir aos preceitos ideológicos da emancipação – e porque não dizer logo, de uma Aufklärung reposicionada para além das prioridades iluministas da razão instrumental, historicista e progressista. Na verdade, para seus defensores, a proposta pós-moderna tem aspirações mais profundas – ou pelo menos, alternativas. Defensáveis, por exemplo, no prosseguimento das primitivas teorias utópicas em vias de exaurimento, e na contra-lógica daquela gestada pelo capitalismo ocidental como realização triunfante de emancipação social e política.
Porém, a sua complexa existência tem a dever outras fontes, fornecendo elementos contrassertivos propagadores de uma crítica polissêmica. Assim, posteriormente, a discussão foi enriquecida por um novo elemento axiológico. Naturalmente, falo do constructo reconhecido pelo nome de pós-colonialismo, cuja violenta desconstrução aporética acusa a tradição modernizadora ocidental de opressão e absolutismo racionalistas. Ela é, antes de tudo, uma resposta ao paradigma eurocentrista de conformação das verdades fundantes, ao unilateralismo de uma cultura totalizante que se arroga a ser porta-voz de um único ocidente, egresso do imperialismo e da univalência cultural dos países do norte. Sua proposta se enfileira ao lado de outras digressões críticas, tais como as vertentes que rechaçam o sexismo, o racismo e a influência de predominâncias culturais hierarquizantes; pretendendo, para além da imitação subserviente dos expedientes imperiais, produzir um discurso próprio, autêntico, haurido em sua contínua re-inscrição de valores e sistemas simbológicos em oposição ao fundamentalismo cultural. A particularização do presente, inferido de uma oportuna teoria de tradução, remonta à contingência de um discurso identitário, por si só transitório, de uma modalidade ética cultural e histórica.
Daqui outro substrato, vindo diretamente da teoria da história e dos teóricos da cultura, em que a oposição entre história e memória, entre “passados presentes” e “passados futuros” (HUYSSEN), e finalmente, entre a tradição de uma grande síntese histórica e a corrente designação das micro-histórias, produz um sentido particular às narrativas e à própria reformulação das subjetividades. O embate entre tempo histórico e tempo memorial decorre não só de suas naturezas dissonantes em suas relações com o passado, mas também nas reservas epistemológicas do primeiro sobre a “ingenuidade” do método do segundo. No entanto, a consciência mais assentada da memória quanto à sua própria razão discursiva, lhe garante um espaço mais firme – e vale dizer, menos controvertido e difuso – em sua tarefa de reproduzir a experiência do passado, mais do que atualmente a história tem podido atingir. A persistência inglória de a história reproduzir totalidades temporais foi que lhe arremedou a sua marca positivista até os dias de hoje, negando a impronunciabilidade da sua aspiração pelo rigor confiante de seu método.
Referências bibliográficas
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EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Trad. Elisabeth Barbosa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
EAGLETON, Terry. Depois da Teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo. Trad. Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
HUYSSEN, Andreas. En busca del tiempo futuro. Trad. Silvia Fehrmann. “Medios, política y memoria”, Revista Puentes, año 1, N° 2, diciembre. Argentina, 2000.
JAMESON, Fredric. A virada cultural: reflexões sobre o pós-moderno. Trad. Carolina Araújo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994 (reimpressão 2005).
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SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 7.ª edição. São Paulo: Cortez, 2000b.
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SARLO, Beatriz. Tempo Passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Trad. Rosa Freire d'Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, Belo Horizonte: UFMG, 2007.
TOSTES, Rogerio R. Uma pós-modernidade para a América Latina: desafios à sociabilidade e às relações interculturais. In: Estudos de Direito Internacional. Anais do V Congresso Brasileiro de Direito Internacional, v. XI. Curitiba: Juruá Ed., 2007.
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