terça-feira, 16 de outubro de 2007

Uma intenção à partida: algumas explicações extemporâneas





Adiantando-me aos meus amigos, tomo a liberdade de introduzir uma primeira reflexão sobre a inspiração que nos reúne e nos impele ao ponto fundante deste pequeno espaço de encontros. Penso falar em nome de todos – destes colegas que obsequiosamente atenderam a um primeiro convite de vir até aqui, a tomar parte de uma idéia que nos toca –, quando falo de nossa motivação como sendo própria à preocupação pelo destino superior que nos envolve a todos, como sujeitos históricos, passíveis aos influxos do tempo e a gangorra de valores que nos desloca diuturnamente de nossas posições ancestrais a uma desestabilização constante.

O Tempo do presente, ou o espírito do tempo, o Zeitgeist de que tratam os alemães, nos cumula de suas eviscerações simbólicas e categorizantes, precariamente estabelecidas para ordenar o cosmo de uma realidade que já não se reconhece no interior de si mesma. Por isso não tem sido inteiramente sem propósito que atualmente se venha armando uma imensa vaga crítica, deflagrada por toda sorte de atuação criativa, a respeito do que um tanto a contra-gosto denominaremos também por momento pós-moderno. Aqui, o designativo “pós” tem uma função importante, que não é de especificar, ou de reclarificar um conceito por demais abstruso de modernidade, mas ao contrário, de indicar a sua exultante incerteza e imprecisão paradigmática em meio das difusas transformações que alentam o cenário crítico vigente.

No entanto, alerta nunca insuficiente, é preciso esclarecer o que me afeta quando enuncio os brasões dessa pós-modernidade. Repiso mais uma vez, assim, que ao contrário da reiterada dicotomia descrita entre o dogmatismo (positivista, historicista até) e o relativismo epistemológico, tenho na pós-modernidade um quadro de deslocamentos, de disjunções críticas, de precariedade dos pilares modernos, de “crise de confiança epistemológica”, e no limite, uma ausência de taxonomias pelo próprio excesso da taxonomização promovida no interior da proposta modernizadora da razão humana. Mais uma vez, pois, “o sonho da razão produz monstros” – donde a gravura de Goya vem a calhar...

Naturalmente, não irei comprometer mais a meus colegas, aprofundando-me nos elementos do debate sobre uma transição paradagimática de modernidade para pós-modernidade, como se essa questão fizesse absoluta presença sobre a natureza de suas intervenções individuais. Ainda que ela me interesse mais pessoalmente, devo dizer que ela também apresente certa pertinência geral, servindo à partida como tema de radicalização para todas as formas de intervenção cultural. Dessa maneira, seja ao tratar das relações entre os indivíduos por debaixo de uma superestrutura política protagonizada pelo Estado moderno, seja ao se discutir os elementos pontuais dessa relação, ou exteriores quando tomados entre sujeitos de direito internacional, no âmbito das relações globais, bem como ainda ao se tratar das novas convergências filosóficas e artísticas, que privilegiadamente sintetizam essas mesmas remodelações culturais, estaremos sempre voltados para uma mesma direção de reflexão crítica entre uma tradição de modernidade iluminista e de sua eventual sucedânea, ruptural e neo-crítica, albergada numa condição pós-moderna.



***


Ao fim e ao cabo, o propósito, que eu não soube acatar adequadamente, ficará por conta das múltiplas significações que meus amigos hão de conceder a esse fator primário (quero eu, seminal) no uso de suas reflexões mais pessoais. Dizer mais seria limitá-los à injustiça de um rude ditado a que não posso ter a afronta de propor.

Agradeço, em tempo, a boa disposição de meus amigos em quem sou devedor. Obrigado!

Rogerio Tostes.

Curitiba, 15 de outubro de 2007.

1 comentários:

Alexandre Pastre disse...
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