
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Uma comparação até certo ponto herética...

sexta-feira, 9 de maio de 2008
Impressões sobre a Nova Rússia (V)
Capítulo IV - Quem disse que russo sabe falar inglês?
O quarto e último ponto de destaque, ou seja, a suspeita de que a esmagadora maioria dos russos não fala inglês, também correspondeu à verdade. Embora já tivesse sido informado a respeito antes da viagem, não levei o conselho a sério até desembarcar no aeroporto de Domodedovo. Mesmo entre as moças encarregadas do centro de informações do aeroporto, teoricamente as que teriam de ter maior fluência no inglês, somente uma pode me ajudar.
Mesmo meu russo sendo intermediário, posso jurar que no começo este cenário me apavorou muito, mas muito mesmo. Para se ter uma idéia, pasmem, no meu hotel ninguém falava inglês. Isto dificultou a resolução de imprevistos pelos quais eu passei, como problemas com a banheira e o cofre, nos quais eu tive que esticar ao máximo o meu conhecimento do russo e exercitar os meus dotes de mímico. Ao fim e ao cabo, ao passar por tais situações, é que passei a acreditar ainda mais piamente em instinto de sobrevivência.
O lado bom da história – sempre há o lado bom da história! – é que pude treinar muito o meu russo, tanto na leitura quanto na conversação. Ao final da viagem, percebi que entendia e falava mais do que quando havia chegado, ainda na vã esperança de falar inglês com os russos.
Não sei se isso é resquício da Guerra Fria e de uma pretensa resistência dos russos em aprender a língua do “inimigo”, mas pude perceber que mesmo os mais jovens não falam inglês, em sua maioria. Entre os mais escolarizados (aqueles com os quais eu pude ter contato na Conferência) a situação é um pouco diferente. Vi que uma parte considerável deles tem algum nível de fluência no idioma, mas não fazem questão ou são resistentes em usá-lo abertamente. Percebi isso claramente durante a minha palestra. Quando falei, em russo, que não tinha fluência suficiente para proferir a apresentação no vernáculo da Mãe Rússia e que a faria em inglês, notei certo desconforto entre os presidentes de mesa e os espectadores, o que não impediu que quatro perguntas, em inglês, fossem feitas a mim após o término da exposição.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
O que é ciência?
Tratá-las pelo seu estágio na modernidade não implica o desprezo pelas categorias epistemológicas pré-modernas, a partir das quais foi possível o decisivo assentamento de sua tradição teórica. Porém, a maneira como essa apropriação é dada já denuncia ad essentia a específica radicalidade do conhecimento científico dos modernos sobre os antigos. Essa transformação (a que evitaremos denominar por ruptura) promoverá a ciência ao núcleo de uma ordem cósmica de representatividade, sendo ela que, abatendo o papel de sustentação mantido pela tradição, ocupará a centralidade das formas de racionalização do espírito humano. Não se pode daí, pensar a ciência moderna sem levar em conta as mesmas instâncias de reconfiguração da modernidade, como quando trata os valores do sujeito e do objeto, ou quando delimita a atuação do homem e da natureza.
A transformação estrutural da ciência ao longo da modernidade, portanto, está inscrita no mesmo rol de personificações do princípio da subjetividade que envolve sociedade, Estado, religiosidade, moral, arte e demais manifestações humanas dessa grandeza[1].
A primeira motivação que toca a ciência na modernidade é uma forma especial de objetividade, não reconhecida em nenhum estágio histórico anterior: “isso vale para a ciência objetivante que, ao mesmo tempo, desencanta a natureza e liberta o sujeito cognoscente”[2]. A partir desse princípio, o sujeito encontra uma forma de autonomia frente à natureza e as contingências de sua existência segundo um conhecimento controlável delas, um conhecimento libertador.
À instrumentalização deste conhecimento, assistem formas de o legitimar e o sustentar racionalmente. Para isso, partindo do assentimento de uma demonstração sempre racional dos seus procedimentos, o conhecimento científico se amoldará no interior de uma forja metodológica atenta a todos esses procedimentos críticos e auto-certificantes. Assim:
A natureza teórica do conhecimento científico decorre dos pressupostos epistemológicos e das regras metodológicas (...) É um conhecimento causal que aspira à formulação de leis, à luz de regularidades observadas, com vista a prever o comportamento futuro dos fenómenos.[3]
Daí que a formulação de leis decorre do princípio de previsibilidade dos mesmos fenômenos, propondo categorias de inteligibilidade e regras para normatizá-las. Ela busca um sentido de estabilidade (mesmo quando leva em conta margens de desordem e instabilidade incidentais) que possa manter a interação com a causa formal dentre os definidos pela física aristotélica: “As leis da ciência moderna são um tipo de causa formal que privilegia o como funciona das coisas em detrimento de qual o agente ou qual o fim das coisas.”[4] E é por conta deste elemento que o conhecimento científico toma sua especificidade diante do conhecimento do senso comum. Sua constituição é caracterizada como processo dinâmico de investigação e experimentação; requer estudo, comprovação, sistematização organizada do conhecimento, estabelecimento de paradigmas de certificação e uma aparelhagem própria de nomenclaturas.
Quanto ao paradigma, ele é o grande ordenador da ciência moderna. Fazendo atenção a ele é que os preceitos de investigação e os resultados práticos dos experimentos atingem o status de cientificidade. Sua utilização terminológica, embora mais frequentemente atido à “ciência normal”, é elementar para o posicionamento de problemas e questões de todo conhecimento científico. Mas também, é por meio da fixação paradigmática que surge outro objeto importante sobre a produção/legitimação do conhecimento na ciência, que vem a ser o estabelecimento das comunidades científicas. Sobre isso, Thomas Kuhn reflete: “Com a escolha do termo pretendo sugerir que alguns exemplos aceitos na prática cientifica real – exemplos que incluem, ao mesmo tempo, lei, teoria, aplicação e instrumentação – proporcionam modelos dos quais brotam as tradições coerentes e especificas da pesquisa científica”[5]. Com base em sua institucionalidade, cria-se um corpo de compartilhamentos lingüísticos essencial à vinculação racional da ciência.
Assim, tal como propora o epistemólogo polonês Ludwik Fleck, o estilo de pensamento e de linguagem de uma comunidade intelectual é conduzido por um dado “coletivo de pensamento” (denkkolletiv), que por sua vez é fornecido por um jogo de poderes estruturantes: o saber inicia-se pois de um centro (esotérico) irradiador para outros círculos (exotéricos) de saber que se influenciam e se legitimam a partir dele[6].
Isto nos levaria, por fim, a consideração de que a ciências moderna, a despeito seu pretenso potencial de pureza, existe inteiramente eivada de vontade política – e consequentemente, de subjetivismo. Daí falar-se muito repetidamente de um certo rumor, um “rumor inquietante”, que batizado de antropologia das ciências[7], daria o novo tom dos discursos epistemológicos sobre a natureza do conhecimento e as categorias mais consagradas do ofício científico. Em nome dessa nova ciência, antropológica e controversa, estabelece-se uma crítica aberta entre cientistas e filósofos e sociólogos e historiadores pelos domínios da epistemologia moderna, transtornando radicalmente a face tradicional das ciências e seu modo de concebê-la na contemporaneidade.
[1] HABERMAS, Jürgen. O Discurso Filosófico da Modernidade: doze lições. Trad. Luiz Sérgio Repa. São Paulo: Martins Fontes, 2000, pp. 27-28.
[2] HABERMAS, J. Op. cit., p. 26.
[3] SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 2005, p. 29.
[4] Ibidem, p. 29 (grifos do autor).
[5] KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira. 9ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 30.
[6] FLECK, Ludiwk. La génesis y el desarrollo de un hecho científico. Madrid: Alianza Editorial, 1986.
[7] STENGERS, Isabelle. A invenção das ciências modernas. Trad. Max Altman. São Paulo: Ed. 34, 2002.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Impressões sobre a Nova Rússia (IV)
Depois de um longo intervalo, volto a postar as minhas impressões da viagem que fiz à Rússia.
O terceiro pré-conceito, sobre o altíssimo custo de vida em Moscou, revelou-se totalmente verdadeiro. A cidade é, segundo pesquisas, a mais cara do mundo. Para se ter uma idéia, a diária do hotel em que fiquei, um três estrelas, era equivalente a 115 dólares (mais ou menos 2.800 rublos). O táxi que me levou ao aeroporto no fim da viagem custou aproximadamente 50 dólares ou 1.200 rublos. As causas apontadas são várias: a inflação na demanda por causa da economia aquecida e a ascensão da figura do “novo russo”, ávido por um padrão de consumo ocidental.
Contudo, há algumas coisas que são bem mais baratas em comparação com o Brasil. Produtos eletrônicos, livros, bebida alcoólica, transporte público (o que torna ainda mais indispensável uma visita ao fantástico metrô moscovita) e, claro, gasolina (um litro de gasolina aditivada custa cerca de 22 rublos, quase um dólar) estão entre elas.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Grandes Metrópoles ao entardecer
Rio de Janeiro, fevereiro de 2008.
Se não fossem as gentes, disse para si mesmo o senhor Alfonso enquanto trafegava, se não fossem as gentes esta cidade seria apenas um parque de automóveis abandonados nas ruas. E foi assim, resmungando, que o velho atravessou a pista, cruzando em seu caminho as grossas e alinhadas faixas brancas que ele não entendia porque eram assim.
As outras pessoas, de tão acostumadas com as particularidades dos cidadãos da notável cidade, não perceberam as palavras ora indignadas ora apenas observadoras do Seu Alfonso. Preferiram seguir seus próprios rumos e pensamentos. Decerto não o considerariam um louco, se o tivessem notado, é claro. Apenas o memorizariam, ou não, como mais um simpático senhor que falava sozinho. Grandes metrópoles!
Já do outro lado da rua, aquela que havia acabado de atravessar, Alfonso encontrou o seu velho amigo banco. Banco de praça, não de dinheiro! Sujo e castigado pela exposição diária ao vento e ao sol, e talvez por isso companheiro leal. Sempre ali à sua espera, como um cão fiel que, sentado, o aguarda com a língua ofegante pra fora de sua boca. Nosso pacato senhor se sentou ali, mas não sem antes oferecer um breve e vistoso carinho ao seu bom amigo.
Tudo parecia igual, se não fossem as gentes. Muito embora visse por ali, e com alguma freqüência, pessoas já conhecidas da sua fraca memória, cada dia seu Alfonso se deparava com uma porção enorme de novos rostos. Se a praça continuava a mesma, com suas árvores e canteiros, bancos e lixeiras, somente alteradas pelo tempo como acontecia também com ele, as gentes cada dia se revelavam outras e mais diferentes. Cores, roupas, modos. De onde vem estas pessoas, se perguntava Alfonso, porque lotam minha rua ou porque não vão pra casa? Vá pra casa, ele quase gritou para os passantes.
Naquele mesmo e exato instante, a igreja, ali perto, alertou com os seus grandes e barulhentos sinos que era hora exata. Seu Alfonso de imediato olhou seu relógio, não para saber as horas, mas para a certeza de que poderia confiar no badalar daqueles sinos. Olhando fixo para o ponteiro mais fino e rápido do seu analógico relógio, acompanhou paciente a vareta até o doze, da hora exata. Não podia confiar na Igreja! Ou não poderia confiar no tempo.
E como se tivesse entrado dentro daquela maquinaria de pulso, o velho sentado no banco da praça não tirou mais os olhos do seu relógio. O tempo também era igual. Não como as gentes, mas como a praça e o banco. O tempo também continuava o mesmo, com seus minutos e segundos, embora cada dia mais castigado por ele mesmo. Eram seis horas?
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Impressões da Nova Rússia (III)
Capítulo II - Política ao estilo russo
O segundo grande "mito" que fui testar, relativo às acusações de autoritarismo por parte do presidente Putin e à falta de "democracia" na Rússia, foi com certeza o que mais ocupou minha mente durante a viagem. Procurei cada evidência, por menor que fosse, que me levasse a uma resposta quanto a esta questão. A minha sorte foi que o período em que lá estive foi muito rico em tais evidências, pois o país todo estava se mobilizando para as eleições parlamentares do início de dezembro.
O partido de Putin, o Edinaya Rossiya (Rússia Unida, em russo), concentrava grande parte da publicidade na TV e nas ruas. Seu principal slogan era "O Plano de Putin - A Vitória da Rússia", em que o bom desempenho da economia do país era atribuída à liderança do presidente. Mas era possível ver também cartazes esparsos de outros candidatos, especialmente os de Vladimir Zhirinovsky, do ultra-nacionalista Partido Liberal-Democrático da Rússia.
Embora grande parte da imprensa esteja nas mãos dos aliados de Putin, foi possível perceber um tom mais crítico (embora não crítico nos padrões ocidentais) nos veículos direcionados aos estrangeiros (investidores e turistas). O The Moscow Times, por exemplo, publicou no dia 7 de novembro uma matéria interessantíssima sobre o monopólio de Putin sobre os meios de comunicação e o desinteresse dos russos em relação aos debates políticos promovidos na televisão.
O fato é que Putin é extremamente popular entre os russos. Ajudado pela conjuntura internacional extremamente favorável, com os altíssimos preços do petróleo e gás natural, produtos importantes dentro da economia russa, o presidente conseguiu reverter (ou ao menos neutralizar) o caos sócio-econômico da era Ieltsin e restaurar o senso de dignidade dos russos, interna e externamente. Prova disso é o seu índice de aprovação de mais de 70% entre a população. Tais níveis, quase inimagináveis no Ocidente, demonstram também a inocuidade das tentativas de tentar formatar o ordenamento sócio-político russo aos ditames da democracia liberal ocidental, cuja assimilação será dolorosa e incompleta pela própria experiência histórica do país, que conserva ainda muitos traços que seriam considerados não-democráticos no Ocidente – Putin insiste na fórmula da “democracia dirigida” ou “democracia soberana” que seria uma democracia à la russe.
Ainda com relação à política, a atual tensão diplomática entre a Rússia e a Geórgia, pequena república do Cáucaso que é célebre por ser a terra natal de Joseph Stalin, causou a interrupção do comércio entre os dois países, o que me impediu experimentar os famosos vinhos georgianos. Fica aí minha dica aos que visitarem a Rússia.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Impressões da Nova Rússia (II)
Sobre os supostos níveis galopantes de criminalidade em Moscou, não notei nada que fugisse à normalidade, muito embora tenha sido aconselhado a não guardar a carteira no bolso e a não mostrar objetos de valor, como em qualquer outra metrópole. Isso tudo provavelmente se deve, em parte ou totalmente, ao grande policiamento na capital. Especialmente no centro, por onde se olha, percebe-se a presença dos muito jovens policiais e agentes, o que, ao mesmo tempo em que dá uma sensação de segurança que não se tem no Brasil, proporciona uma atmosfera opressiva que faz lembrar os tempos da "Velha Rússia".
Afora isso, o extremo policiamento ocasionou duas situações inusitadas, para não dizer engraçadas, para mim. A primeira foi o dia que escolhi para conhecer o centro de Moscou (Praça Vermelha, GUM, Kremlin e Catedral de São Basílio) foi 7 de novembro. Um bom conhecedor de História Contemporânea sabe o que esta data significa na Rússia, ainda mais em 2007. Pois é, mesmo não existindo mais a URSS, os 90 anos da Revolução de Outubro causaram bastante frenesi na cidade, com uma parada militar para comemorar um obscuro evento da Segunda Guerra Mundial -- o que, segundo o The Moscow Times, serviu para comemorar "por tabela" o aniversário da Revolução. E como tudo isso me afetou? Bem, pelo simples fato de os policiais fecharem e isolarem ao seu bel-prazer quase todos os pontos turísticos do centro em momentos diferentes do dia, o que me desesperou no começo. Algumas horas depois, fui tranqüilizado ao ver a Praça Vermelha aberta e sorrindo para mim, pedindo para ser visitada por um estudante que tanto havia lido sobre ela!
A segunda situação inusitada foi mais tarde, no mesmo dia, às portas do Kremlin. Estava em uma loja de souvenirs, indeciso diante de tantas opções de presentes, quando a gerente da loja, toda desesperada, começou a berrar, em russo, que a polícia estava chegando, expulsando-me do recinto junto com duas turistas francesas. Não foi preciso muito esforço para concluir que algo na loja devia estar irregular: alvará expirado, sonegação de impostos ou, talvez, vencimento do prazo de vigência da propina anterior. Enfim, o que importa é que acabei sendo vítima de um "rapa" moscovita.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Impressões sobre a Nova Rússia
A oportunidade, sem precedentes em minha vida, serviu para ver in loco, sob um prisma brasileiro, as transformações pelas quais a Rússia pós-soviética (a "Nova Rússia") vem passando e inevitavelmente compará-las com a nossa realidade.
É difícil não formar expectativas e pré-conceitos sobre o lugar a ser visitado. Depoimentos de conhecidos e, especialmente agora, a profusão de guias especializados e blogs (como este) nos "ajudam" a tecer um panorama antecipado antes da viagem. Da Rússia, muito ouvi falar sobre:
Analisarei nas próximas semanas cada um destes pontos, finalizando com as minhas considerações sobre a Conferência em que participei. Abster-me-ei de discutir estereótipos étnicos (e.g., o suposto caráter ríspido e duro dos russos e a beleza das russas, embora esta última esteja mais próxima da verdade) por acreditar que tal debate é, no mínimo, estéril e ingênuo ao tentar, no caso da Rússia, reduzir 150 milhões de pessoas a um ou dois adjetivos.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Um paradigma obsedante: crítica cultural e reflexões para o futuro
Jonas BendiksenKENYA. Burnt Forest. 2008
Sem querer propriamente repisar o freqüentado terreno das digressões críticas que envolvem esse mesmo debate, gostaria de acrescentar uma pontuação pessoal no envolvimento de suas tendências epistemológicas, às vezes ingênuas e disparatadas, de renovação cognitivo-instrumental da modernidade tardia.
Em geral, quando se fala em pós-modernidade, tem-se presente a matriz de fundamento dialético erigida pela crítica cultural das últimas décadas; nomeadamente, a representada pela: (1) recente geração dos teóricos frankfurtianos, (2) pelos pós-estruturalistas franceses, seus naturais contendores, e (3) pelos militantes da voga do New Criticism, que de alguma forma parte dos dois postos anteriores para refletir a conjuntura cultural norte-americana. Assim, o debate aparece atrelado fundamentalmente à volta de dois grandes temas principais: o político-filosófico e o científico-epistemológico.
A partir deles, um conceito mais ou menos genérico de pós-modernismo invade os espaços especializados e públicos de conhecimento teórico, nos quais persistem uma deformidade elusiva sobre sua realidade programática e estrutural, resvalando num julgamento engessado que reduz suas prioridades à condição de mera desestabilização, irracionalidade e relativização das verdades consagradas pela tradição modernizadora. Em nome desta perspectiva, Terry Eagleton, intelectual eminente e consagrado teorizador da atual crítica cultural, sintetiza a pós-modernidade segundo esta inserção conceitual:
"Pós-moderno" quer dizer, aproximadamente, o movimento de pensamento contemporâneo que rejeita totalidades, valores universais, grandes narrativas históricas, sólidos fundamentos para a existência humana e a possibilidade de conhecimento objetivo. O pós-modernismo é cético a respeito de verdade, unidade e progresso, opõe-se ao que vê como elitismo na cultura tende ao relativismo cultural e celebra o pluralismo, a descontinuidade e a heterogeneidade. (EAGLETON, 2006: 27, nota 3)
O segundo movimento, fica pois por conta dos teóricos sociais, que em busca de uma posição eminentemente política, partem em direção do complexo movido pela interdisciplinaridade dos mecanismos de reflexão cultural, e que enxergam nesta guinada pós-moderna a ocasião libertadora da crítica, e finalmente, a oportunidade de se reconduzir aos preceitos ideológicos da emancipação – e porque não dizer logo, de uma Aufklärung reposicionada para além das prioridades iluministas da razão instrumental, historicista e progressista. Na verdade, para seus defensores, a proposta pós-moderna tem aspirações mais profundas – ou pelo menos, alternativas. Defensáveis, por exemplo, no prosseguimento das primitivas teorias utópicas em vias de exaurimento, e na contra-lógica daquela gestada pelo capitalismo ocidental como realização triunfante de emancipação social e política.
Porém, a sua complexa existência tem a dever outras fontes, fornecendo elementos contrassertivos propagadores de uma crítica polissêmica. Assim, posteriormente, a discussão foi enriquecida por um novo elemento axiológico. Naturalmente, falo do constructo reconhecido pelo nome de pós-colonialismo, cuja violenta desconstrução aporética acusa a tradição modernizadora ocidental de opressão e absolutismo racionalistas. Ela é, antes de tudo, uma resposta ao paradigma eurocentrista de conformação das verdades fundantes, ao unilateralismo de uma cultura totalizante que se arroga a ser porta-voz de um único ocidente, egresso do imperialismo e da univalência cultural dos países do norte. Sua proposta se enfileira ao lado de outras digressões críticas, tais como as vertentes que rechaçam o sexismo, o racismo e a influência de predominâncias culturais hierarquizantes; pretendendo, para além da imitação subserviente dos expedientes imperiais, produzir um discurso próprio, autêntico, haurido em sua contínua re-inscrição de valores e sistemas simbológicos em oposição ao fundamentalismo cultural. A particularização do presente, inferido de uma oportuna teoria de tradução, remonta à contingência de um discurso identitário, por si só transitório, de uma modalidade ética cultural e histórica.
Daqui outro substrato, vindo diretamente da teoria da história e dos teóricos da cultura, em que a oposição entre história e memória, entre “passados presentes” e “passados futuros” (HUYSSEN), e finalmente, entre a tradição de uma grande síntese histórica e a corrente designação das micro-histórias, produz um sentido particular às narrativas e à própria reformulação das subjetividades. O embate entre tempo histórico e tempo memorial decorre não só de suas naturezas dissonantes em suas relações com o passado, mas também nas reservas epistemológicas do primeiro sobre a “ingenuidade” do método do segundo. No entanto, a consciência mais assentada da memória quanto à sua própria razão discursiva, lhe garante um espaço mais firme – e vale dizer, menos controvertido e difuso – em sua tarefa de reproduzir a experiência do passado, mais do que atualmente a história tem podido atingir. A persistência inglória de a história reproduzir totalidades temporais foi que lhe arremedou a sua marca positivista até os dias de hoje, negando a impronunciabilidade da sua aspiração pelo rigor confiante de seu método.
Referências bibliográficas
DOMINGUES, José Maurício & MANEIRO, Maria (orgs.) América Latina hoje: conceitos e interpretações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Trad. Elisabeth Barbosa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
EAGLETON, Terry. Depois da Teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo. Trad. Maria Lúcia de Oliveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
HUYSSEN, Andreas. En busca del tiempo futuro. Trad. Silvia Fehrmann. “Medios, política y memoria”, Revista Puentes, año 1, N° 2, diciembre. Argentina, 2000.
JAMESON, Fredric. A virada cultural: reflexões sobre o pós-moderno. Trad. Carolina Araújo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994 (reimpressão 2005).
SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Coleção “Para um novo senso comum”, v. 1. São Paulo: Cortez, 2000a.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 7.ª edição. São Paulo: Cortez, 2000b.
SARLO, Beatriz. Tempo Presente: notas sobre a mudança de uma cultura. Trad. Luís Carlos Cabral. Rio de Janeiro: José Olympio Ed, 2005.
SARLO, Beatriz. Tempo Passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Trad. Rosa Freire d'Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, Belo Horizonte: UFMG, 2007.
TOSTES, Rogerio R. Uma pós-modernidade para a América Latina: desafios à sociabilidade e às relações interculturais. In: Estudos de Direito Internacional. Anais do V Congresso Brasileiro de Direito Internacional, v. XI. Curitiba: Juruá Ed., 2007.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Assunção e crise do Estado-Providência e a desnaturalização do direito ao Estado de Direito
O Estado moderno já não é mais o que costumava ser. A sua propensão a agente neutro, encarnação abstrata e subjetiva do Poder da ordem pública, sofreu em seu estatuto a aquisição de novos atributos. Sendo o Estado o totem de uma nova divindade moderna, transformamo-lo no sujeito passional e humanizado que deve trazer sobre si as contingências das promessas incumpridas desse projeto de modernidade transviada. Convém aquilo que Georges Burdeau mencionou uma vez, dizendo mesmo que atribuímos a esse deplorado Estado-homem as volúpias próprias do humano: “é generoso ou avaro, engenhoso ou estúpido, cruel ou bonachão, discreto ou invasivo” (2005: 9).
Para além, é mister à expansão da sociabilidade a consolidação de um direito social autônomo, supondo o “aumento das possibilidades de experimentação e de substituição de auto-serviços coletivos pela clássica demanda de Estado” (ROSSANVALON: 102), para concomitantemente tornarem reconhecidos os segmentos da sociedade civil como entidades capazes de emitir categorias de direito juridicamente válidas. Ao ponto que tais redes de solidariedade atinjam complexidade própria, concedendo à sociedade a possibilidade do despertamento, aureolando o conhecimento que possa ter de si mesma. Concatenando, pois, uma perspectiva externa (o descolamento das influências teóricas estrangeiras) e uma perspectiva interna que empregue auto-conhecimento sobre a emancipação social, virá o tempo de a coletividade e o Estado se reconstituírem jurídica e sociologicamente para, confrontados a uma ordem global cada vez mais pós-moderna, se realinharem rumo a uma mundialidade vindoura.
Com a reestruturação do modelo do aparelho de Estado concebido no último século, notadamente a institucionalização da burocracia formal, ocupada em ministrar a justiça de acordo com o recém adquirido monopólio estatista, o direito processual passou a revestir-se de enorme autonomia frente ao direito material, do qual até então fora um acessório, na consolidação e na prática da justiça.
Tal evolução, se demonstrada em paralelo com as transformações sociais que fizeram passar do Estado liberal para o Estado-Providência, do Pós-guerra até a década de 60, leva ao culminar da “crise da administração da justiça” (Ibidem: 165), causada por aquilo que, nos países desenvolvidos, se reconheceu pela acelerada integração dos direitos sociais junto ao aparelho jurisdicional do Estado.
visto que uma comunidade apenas pode ser constituída por uma tal ordem normativa (sim, identifica-se mesmo com esta ordem), a ordem normativa que constitui o Estado apenas pode ser a ordem de coerção relativamente centralizada que nós verificamos ser a ordem jurídica estadual. (Ibidem: 318)
Esta tese torna-o próximo do totalitarismo positivista, que expulsa toda a linguagem e a experiência da coletividade. O costume fica relegado a princípio interpretativo da norma maior, emanação do Estado, então a única revestida de validade e discricionariedade jurídica. Esta questão não escapara totalmente a Kelsen, como quando ele diz que o “Direito consuetudinário é mesmo apontado... como argumento a favor da tese de que o Direito não é ou não é necessariamente criado pelo Estado, de que há um Direito que é criado ou se forma de um modo inteiramente independente do Estado” (Ibidem: 326). Ainda assim, ele busca atenuar o elemento consuetudinário integrando-o à categoria de “fato criador de Direito”, guiando-o, finalmente, à hermenêutica das fontes gerais. Com tanto que, se por um lado o jurista alemão teve o mérito de estruturar o Direito à pretensão de uma ciência autêntica, haurida por sua própria substância, por outro, determinou o alastramento de uma idéia que já ganhava força com a magnanimização do Estado, ou seja, a supremacia do Direito ao receptáculo estatal, confundindo-os numa hiper-estrutura permanente, intransigente contra qualquer outra, de matiz extra-oficial.
Apesar disto, tão logo ele se consumara como único Poder, valor-reflexo da soberania nacional, reconhecendo no direito estatal o único Direito, apressou-se em recusar o mesmo lugar às outras formas de ordenamento jurídico, sociologicamente coexistentes. Ao iluminar esta face do processo histórico-institucional do Estado de Direito, o sociólogo português assinala que, conforme projeto seu, para se “des-pensar o direito num período de transição paradigmática”, à luz de novas categorias críticas e de novas prioridades legitimatórias, deve-se necessariamente pelejar por descindir a univalência entre Estado e Direito. Nessa intenção, ele nos revela uma dupla proposição, na qual primeiro averiguará que, além de o Estado jamais ter detido o monopólio sobre o Direito, também aquele nunca esteve submetido completamente a este, para depois, analisando o deliberado afastamento da “pluralidade de ordens jurídicas”, perceber o quanto ele alijou fatalmente a perspectiva de expansão à emancipação que o Direito moderno poderia ter alcançado. O grande efeito de todo esse processo (a expansão simbólica da centralidade jurídica estatal) foi a violação passiva da idéia atualmente congregada ao Direito: a prática monolítica da regulação se consagrou em verdade totêmica, afetando de modo assaz profundo a cultura jurídico-política que se converteu em senso comum, a tanto que, hoje, confrontá-la significaria negar o Direito e sua própria existência.
[1] “Sob a Constituição, a catedral jurídica se organiza em sistema; este, em seu significado filosófico, é a expressão jurídica de uma racionalidade lógico-formal; em sua eficiência prática, a ordem constitucional é portadora de normatividade, de modo que as regras de direito ganham figura, no âmbito estatal, de modelos de diretividade.” GOYARD-FABRE, Simone. Os fundamentos da ordem jurídica. Trad. Cláudia Berliner. Sao Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 112.
BOURDIEU, Pierre. A demissão do Estado. In: A miséria no mundo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
BURDEAU, Georges. O Estado. Trad. Maria Ermantina de Almeida Prado Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
GOYARD-FABRE, Simone. Os princípios filosóficos do direito político moderno. Trad. Irene A. Paternot. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
GOYARD-FABRE, Simone. Os fundamentos da ordem jurídica. Trad. Cláudia Berliner. Sao Paulo: Martins Fontes, 2002.
HIRSCHMAN, Albert O. Auto-subversão: teorias consagradas em xeque. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 6.ª edição. Trad. João Baptista Machado. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
PERLINGIERI, Pietro. Perfis do direito civil: introdução ao direito civil constitucional. Trad. M. C. De Cicco. Rio de Janeiro: Renovar, 1999.
ROSANVALLON, Pierre. A crise do Estado-providência. Trad. Joel P. de Ulhôa. Brasília/Goiânia: Ed. UnB/UFG, 1997.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: O social e o político na pós-modernidade. 7.ª edição. São Paulo: Cortez, 2000.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Coleção “Para um novo senso comum”, v. 1. São Paulo: Cortez, 2000b.
TOSTES, Rogerio R. Uma pós-modernidade para a América Latina: desafios à sociabilidade e às relações interculturais. In: Estudos de Direito Internacional. Anais do V Congresso Brasileiro de Direito Internacional, v. XI. Curitiba: Juruá Ed., 2007.
WARAT, Luís Alberto. O Direito e sua Linguagem. 2ª edição. Porto Alegre: S.A. Fabris Ed., 1995.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Uma intenção à partida: algumas explicações extemporâneas

O Tempo do presente, ou o espírito do tempo, o Zeitgeist de que tratam os alemães, nos cumula de suas eviscerações simbólicas e categorizantes, precariamente estabelecidas para ordenar o cosmo de uma realidade que já não se reconhece no interior de si mesma. Por isso não tem sido inteiramente sem propósito que atualmente se venha armando uma imensa vaga crítica, deflagrada por toda sorte de atuação criativa, a respeito do que um tanto a contra-gosto denominaremos também por momento pós-moderno. Aqui, o designativo “pós” tem uma função importante, que não é de especificar, ou de reclarificar um conceito por demais abstruso de modernidade, mas ao contrário, de indicar a sua exultante incerteza e imprecisão paradigmática em meio das difusas transformações que alentam o cenário crítico vigente.
No entanto, alerta nunca insuficiente, é preciso esclarecer o que me afeta quando enuncio os brasões dessa pós-modernidade. Repiso mais uma vez, assim, que ao contrário da reiterada dicotomia descrita entre o dogmatismo (positivista, historicista até) e o relativismo epistemológico, tenho na pós-modernidade um quadro de deslocamentos, de disjunções críticas, de precariedade dos pilares modernos, de “crise de confiança epistemológica”, e no limite, uma ausência de taxonomias pelo próprio excesso da taxonomização promovida no interior da proposta modernizadora da razão humana. Mais uma vez, pois, “o sonho da razão produz monstros” – donde a gravura de Goya vem a calhar...
Naturalmente, não irei comprometer mais a meus colegas, aprofundando-me nos elementos do debate sobre uma transição paradagimática de modernidade para pós-modernidade, como se essa questão fizesse absoluta presença sobre a natureza de suas intervenções individuais. Ainda que ela me interesse mais pessoalmente, devo dizer que ela também apresente certa pertinência geral, servindo à partida como tema de radicalização para todas as formas de intervenção cultural. Dessa maneira, seja ao tratar das relações entre os indivíduos por debaixo de uma superestrutura política protagonizada pelo Estado moderno, seja ao se discutir os elementos pontuais dessa relação, ou exteriores quando tomados entre sujeitos de direito internacional, no âmbito das relações globais, bem como ainda ao se tratar das novas convergências filosóficas e artísticas, que privilegiadamente sintetizam essas mesmas remodelações culturais, estaremos sempre voltados para uma mesma direção de reflexão crítica entre uma tradição de modernidade iluminista e de sua eventual sucedânea, ruptural e neo-crítica, albergada numa condição pós-moderna.
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Ao fim e ao cabo, o propósito, que eu não soube acatar adequadamente, ficará por conta das múltiplas significações que meus amigos hão de conceder a esse fator primário (quero eu, seminal) no uso de suas reflexões mais pessoais. Dizer mais seria limitá-los à injustiça de um rude ditado a que não posso ter a afronta de propor.
Agradeço, em tempo, a boa disposição de meus amigos em quem sou devedor. Obrigado!
Rogerio Tostes.
Curitiba, 15 de outubro de 2007.
